segunda-feira, 30 de setembro de 2013


Autoretrato

O vento sopra. Cambaleando e sendo levada pelo vento ela entra no palco. Veste um vestido esvoaçante. Passando pelo espaço a procura de algo para se firmar. Abraça uma árvore. Sente-se firme e relaxa. Analisa bem a árvore sua copa, seu tronco, suas raízes e se encanta. Quando vê esta dormindo, acorda em um susto porque há uma minhoca andando em sua mão. Sente algo em seu pé também olha para baixo,cheio de minhocas, cai uma minhoca em sua cabeça, olha para cima e há minhocas em todo canto da árvore. Desesperada, com nojo e assustada. Desgruda-se da árvore sentindo o vento que a empurra novamente para a árvore. Sente as minhocas em sua pele contorna a árvore e se desgruda novamente. Solta novamente no vento aprecia estar longe da árvore e das minhocas e começa a dançar com o vento sentindo-se livre leve e solta.

Tropeça em uma pedra e se esburracha no chão.

Fica por algum tempo ali sentindo o vento batendo nas costas e indo embora sente a terra úmida no rosto. Olha para a frente e vê uma flor uma simples margarida.

Ela- Oi flor!

Coloca a cabeça no chão novamente. Intrigada olha novamente a flor a analisando.

Ela- Seu caule é tão fino e suas pétalas tão compridas e grossas. Como uma base tão frágil pode sustentar uma cabeça tão grande?

A flor se sentindo insultada pelo cabeçuda mostra-lhe a língua. Ela simplesmente ri e olha para o chão.
Olha para a frente. Decidida.

Ela- Flor gostei de você! Agora será minha amiga.



Maria Inês Z. Vicente

domingo, 29 de setembro de 2013

Divã Improvisado (Exercício 1)



Divã Improvisado


(Ronny Leal)


Quem é você, que é visto, retrato, no prato? O que digeriu, o nutriu e o que passou direto e depois do reto, no vaso caiu e no esgoto… todo sabor, todas as cores, depois, é uma cor só, um cheiro só e o sabor… Não te saboreia no esgoto, só se come quando gostoso de olhar, bom de cheirar e o gosto… imaginado, é imaginar-te como alguém que… Por que nunca é esse alguém?


Ela tem conceitos pré-formados.


Quê?


Esta que vê, o retrato, no prato.


Que tem ela?


Quem é ela?


Estou dizendo.


Sente-se confortável nesta posição ingerindo açúcar para uma receita de paciência que nunca fica pronta, só vai açúcar, não tem outros ingredientes?


É um melado. E ninguém procura paciência. É um péssimo leitor.


Que procuras num prato – vazio?


Não está vazio. Está cheio. Veja você mesmo.


Então deixe o lugar, vazio.


Sente-se. E agora, vê o quê?


Você.


Quê?


Vejo o sal que faltou no seu melado.


Sal é ruim.


Sal dá gosto.


Não adocica.


Sal realça o sabor. E o melado é só uma parte da receita.


Qual a outra?


O bolo todo com todo o resto que lhe completa.


Tudo junto dá esgoto. O bom é cada sabor separado, cada cheiro de uma vez e o gosto…


São gostos.


Uma coisa só, mistura de outras, é esgoto.


E outra coisa.


O quê?


Pessoa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Invasão de Privacidade



Invasão de Privacidade 
(Patrícia Franconere)

Ela acorda
Ela sente que alguma coisa está mudada
Ela olha para os lados
Os móveis permanecem nos mesmos lugares
Os objetos alguém modificou
O tic Tac do relógio conta o tempo
Ela conta o tic tac
Ela quer ficar mais um tempo na cama
Mas não será possível.
Ela ouve vozes
As vozes causam estranhamento
Ela sente medo
O medo traz insegurança
É preciso encarar a verdade
É preciso encarar a verdade
´´E preciso encarar a verdade
A MUDANÇA
Ela fecha os olhos e respira fundo
O ar que lhe enche os pulmões
Também é o que lhe enche de
CORAGEM
Num impulso ela se levanta e troca de roupa
Ela precisa do silêncio
Do silêncio que fala
Ninguém entende ela
Ela não entende ninguém
Ela ouve o barulho do rádio
Não foi ela quem ligou
Ela não está só
A televisão não está no canal que ela sintonizou
O volume alguém alterou
A casa já não está arrumada
Como ela deixou
O que esse chinelo faz aqui?
Não adianta guardar
O chinelo voltará para o mesmo lugar
Como se tivesse
Vida própria
Tem um copo dentro da pia
Tem uma toalha fora do lugar
Ela não pode mais falar sozinha
Ela não pode mais xingar
Acabou banho de porta aberta
Ela foi arrancada de seu pequeno mundo
Seu mundo solitário
Universo do silêncio
Ela sente falta de ar
Ela sente sufocar
Ela abre a porta do quarto
BOM DIA!




quarta-feira, 25 de setembro de 2013

(não) Saber


(não)Saber - Camila Tagliatella 

Ela vê o mundo como se folheasse uma partitura musical muito complexa.
Os sons e cheiros compõem a visão de tudo o que ela sonha que seria o ideal.
Por muitas vezes se sente em um filme europeu de um diretor famosíssimo – lê-se: estranhíssimo – desses filmes que você finge que entendeu fazendo sua melhor cara de conteúdo, mas que na verdade você queria mesmo era o dinheiro do ingresso de volta.
Ela se sente um furacão às vezes e não consegue compreender ao certo onde ela começa e os outros terminam. Tem ideias geniais que já foram pensadas por outras pessoas.
Finge que sozinha pode dominar o mundo, mas no fundo sabe que precisa tanto dos outros a ponto de morrer de medo de não ter ninguém por perto.
Ela gostaria de ser um pássaro, uma leoa, às vezes uma hiena e às vezes um dragão. Às vezes ela gostaria de ser ela mesma, mas só às vezes (como isso é uma obrigação diária, acaba caindo na rotina).  E então ela se reinventa.
A pessoa em questão se questiona sobre a enorme questão de conviver com as outras pessoas. Essa pessoa descobriu que não pertence a lugar nenhum. Descobre a cada dia que o local de pertencimento pode não ter endereço e CEP, mas pode ter RG e CPF. E sabe que pertencer a si mesmo é a parte mais difícil de jogar o jogo.
Ela está certa de que o local de nascimento é aquele em que lançamos olhares inteligentes sobre nós mesmos. Mas duvida muito que realmente saiba o que significa “inteligente”.
Ela tem absoluta certeza de que as palavras não significam realmente o que está no dicionário. Procura criar um mundo só dela. Onde não tenha gente que passe fome ou frio. E reza todas as noites (mesmo não sabendo pra quem) pedindo que o mundo do qual ela pertence se pareça com um mundo que ela criou.
Para ela, a religião significa amar ao outro e tentar amá-lo até quando isso parece impossível. Ela procura compreender. E compreender porque é tão difícil para o mundo compreendê-la.
O sonho dela é ser simples. Mesmo sabendo que os humanos são quebra-cabeças inincaixáveis e sobrepostos que confundem o tempo todo o ódio e o amor.
Ela sabe que nada sabe, e mesmo assim busca saber. Ela sabe que o importante é o processo mas busca desesperadamente por resultados. Ela só quer aprender a comunicar o que ela sente, mas palavras não foram inventadas ainda para explicar.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Exercício 1: Autorretrato em Terceira Pessoa


“Autorretrato em Terceira Pessoa” teve como ponto de partida, colagens produzidas pelos dramaturgos a partir de imagens de revistas, em 20 minutinhos..., respondendo a pergunta “Quem sou eu?”. Na sequência, foi realizada uma primeira versão do texto que também precisou ser escrito em vinte minutinhos.
Para essa fase lemos e analisamos “Eu sou um erro” de Jan Fabre.
  
  
Sugestões de leitura:
  
Tese de Doutorado de Adélia Nicolete sobre Ateliês de Escritas: 
  

Solange Dias